Equipe Evoluir

Autismo em Cuiabá: 8 anos de desafios e transformação

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Quando comecei a trabalhar com intervenção precoce e intensiva para crianças autistas em Cuiabá, em 2018, o acesso ao tratamento para autismo ainda era muito diferente do que vemos hoje. Eu vivi essa mudança de perto.

Antes de falar sobre clínica, ABA, diagnóstico ou mercado, porém, acho importante contar de onde eu vim. Aprendi a ler sozinha, ainda criança, antes mesmo de entrar na escola. Era uma menina estudiosa, quieta e muito imaginativa. Comecei a trabalhar cedo também. Vendi chip de operadora na rua, trabalhei em camelô no centro de Cuiabá, fui babá e garçonete.

Na faculdade de Psicologia, escolhi fazer meu TCC sobre redução de danos no uso abusivo de drogas. Já naquela época, eu tinha interesse em entender o sofrimento humano sem partir simplesmente do julgamento. Queria compreender o contexto e encontrar estratégias que realmente pudessem ajudar.

Depois da graduação, dois pacientes que comecei a atender ainda durante o estágio continuaram comigo. Foi a partir desse trabalho que, em 2018, comecei a construir a Equipe Evoluir. O que começou pequeno cresceu muito. E, durante esses oito anos, acompanhei de dentro uma transformação enorme na forma como o autismo passou a ser discutido, diagnosticado e tratado no Brasil.

Hoje, a Equipe Evoluir vive uma nova fase. Continuamos tendo o autismo como uma parte importante da nossa história, mas estamos ampliando nossa atuação para outras necessidades relacionadas ao desenvolvimento humano e à neurodivergência. Antes de falar sobre o futuro, porém, quero voltar ao começo.

Como era o atendimento para autismo em Cuiabá

Quando comecei a atuar com intervenção precoce para crianças autistas, esse tipo de atendimento ainda tinha uma oferta bastante limitada em Cuiabá. Muitas famílias precisavam procurar atendimento em outras capitais. Outras tentavam montar, dentro de casa, alguma forma de intervenção baseada no que encontravam na internet, muitas vezes sem orientação profissional adequada. Eu via isso acontecer de perto.

Via mães e pais procurando ajuda, esperando por uma vaga e sem saber exatamente onde levar os filhos.

Foi nesse cenário que surgiu a necessidade de construir uma estrutura especializada em atendimento para pessoas com autismo na cidade. A ideia nunca foi simplesmente abrir uma clínica. Era preciso criar uma equipe, desenvolver processos, encontrar profissionais e, principalmente, construir conhecimento. Porque não adianta aumentar o número de salas de atendimento se não existem profissionais preparados para trabalhar nelas.

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Por que a formação em ABA se tornou tão importante

A Análise do Comportamento Aplicada, conhecida como ABA, passou a ocupar um espaço cada vez maior nos serviços voltados ao tratamento do autismo no Brasil. Em Cuiabá, percebemos rapidamente que existia uma segunda necessidade além do atendimento: a formação de profissionais.

Por isso, também participei do movimento que ajudou a impulsionar a primeira turma de pós-graduação em Análise do Comportamento Aplicada na região. Era uma questão prática. A procura pelo atendimento estava aumentando, mas não seria possível sustentar um trabalho de qualidade sem pessoas preparadas para fazê-lo. Ao longo dos anos, essa relação entre crescimento da demanda e formação profissional se tornou ainda mais evidente.

O crescimento do diagnóstico de autismo no Brasil

O que eu acompanhava em Cuiabá não era um fenômeno isolado. Nos últimos anos, o Brasil passou por uma mudança significativa na identificação das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Censo 2022 do IBGE registrou 2,4 milhões de brasileiros autodeclarados autistas. Já o Censo Escolar de 2024 apontou crescimento de 44,4% nas matrículas de estudantes autistas.

Também houve aumento na procura por profissionais especializados. Um estudo realizado pela Memed em parceria com a NeuroSteps apontou que, entre 2022 e 2025, o número médio de pacientes com TEA atendidos por médico cresceu quase 50%. Para quem trabalha na área, esses números não são apenas estatísticas. São famílias chegando às clínicas. São crianças aguardando avaliação. São adultos descobrindo o diagnóstico depois de muitos anos. E são profissionais tentando acompanhar uma demanda que cresceu muito rapidamente.

O aumento dos diagnósticos significa que existe mais autismo?

Essa é uma pergunta que aparece com frequência. Na minha experiência, é preciso ter cuidado com respostas simplistas. Uma parte importante do aumento dos diagnósticos está relacionada à maior capacidade de identificar pessoas que já apresentavam características do espectro, mas que durante muito tempo não receberam um diagnóstico.

Os critérios diagnósticos também mudaram ao longo dos anos. A partir de 2013, com a publicação do DSM-5, diferentes condições que antes eram classificadas separadamente passaram a fazer parte do Transtorno do Espectro Autista. Além disso, famílias, escolas e profissionais passaram a conhecer melhor os sinais do autismo. Por isso, não vejo esse crescimento simplesmente como uma “epidemia de diagnósticos”.

Em muitos casos, estamos falando de pessoas que sempre estiveram ali, mas que finalmente começaram a ser reconhecidas. E isso também ajuda a explicar por que hoje existe uma procura tão grande por avaliação e tratamento para autismo.

O que mudou na cobertura dos planos de saúde para o autismo

Outro ponto importante nessa transformação foi a ampliação do acesso aos tratamentos por meio dos planos de saúde. Em 2021, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) publicou a Resolução Normativa 469. Posteriormente, as Resoluções 539 e 541, de 2022, ampliaram as regras relacionadas à cobertura de atendimento para pessoas com transtorno do espectro autista. Na prática, isso teve um impacto enorme na procura por serviços especializados.

Famílias que antes enfrentavam limites de sessões passaram a buscar atendimento com uma frequência maior, e as clínicas precisaram se adaptar rapidamente. O mercado cresceu. A procura por profissionais cresceu. E, junto com tudo isso, também cresceram os desafios.

O crescimento da terapia ABA também trouxe desafios

A popularização da terapia ABA no Brasil foi importante para ampliar o acesso a determinadas formas de intervenção, mas também revelou um problema que considero fundamental discutir: o crescimento da demanda foi muito rápido. A ABA não possui uma profissão independente regulamentada no Brasil e não existe uma graduação específica para formar um “profissional de ABA”. A formação acontece principalmente por meio de pós-graduações, cursos e diferentes processos de capacitação. Isso criou um cenário bastante desigual.

Existem profissionais muito bem preparados e clínicas que investem seriamente em supervisão, formação e qualidade clínica. Mas também existem serviços que cresceram rapidamente sem conseguir acompanhar esse crescimento com a mesma qualidade. A consequência pode aparecer na rotatividade das equipes, na falta de supervisão adequada e na diferença enorme entre um serviço e outro.

O PL 1.321/2022, em tramitação na Câmara dos Deputados, trata justamente da regulamentação relacionada à aplicação da terapia ABA. O Conselho Federal de Psicologia também já se posicionou sobre o tema e, em 2025, publicou uma nota técnica com orientações para psicólogos sobre o uso ético da ABA. Esse debate é necessário.

Não porque a terapia ABA deva ser demonizada, mas porque qualquer intervenção voltada a pessoas precisa ser realizada com responsabilidade, formação e acompanhamento adequado.

O tratamento para autismo ainda é desigual no Brasil

Existe outro ponto que não podemos ignorar. A ampliação da cobertura dos planos de saúde trouxe avanços, mas ela não alcança a maior parte da população brasileira. Cerca de 75% dos brasileiros não possuem plano de saúde.

O SUS também vem aumentando os investimentos na atenção às pessoas com TEA. O investimento federal passou de R$ 119,3 milhões em 2022 para R$ 221,8 milhões em 2025. Mesmo assim, a demanda continua enorme. Principalmente fora dos grandes centros. Essa é uma questão que precisa fazer parte da conversa sobre autismo no Brasil. Não basta discutir qual é a melhor abordagem terapêutica se muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para conseguir uma avaliação, um diagnóstico ou um atendimento especializado. Uma clínica que trabalha com desenvolvimento humano não pode ignorar essa realidade.

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A história da Equipe Evoluir também mudou

Foi vivendo todas essas transformações que percebi que a Equipe Evoluir precisava mudar. Durante esse período, chegamos a ter seis unidades e mais de 130 profissionais. Foi uma fase de crescimento muito intenso. Mas crescer também ensina.

Em determinado momento, entendemos que precisávamos reduzir a estrutura para três unidades. Não porque a demanda tivesse desaparecido ou porque o trabalho tivesse perdido importância. Foi uma decisão estratégica. Percebemos que crescer rápido demais sem conseguir manter uma supervisão clínica sólida poderia colocar em risco justamente aquilo que sempre consideramos mais importante: a qualidade do atendimento. Hoje, prefiro uma estrutura mais consistente a uma estrutura simplesmente maior.

Da clínica de autismo para um centro de desenvolvimento humano

A nova fase da Equipe Evoluir nasce dessa experiência. O autismo continua fazendo parte da nossa história e daquilo que sabemos fazer. Mas queremos ampliar o olhar. Existe uma demanda enorme por atendimento de adultos, diagnóstico tardio, orientação profissional para pessoas neurodivergentes, suporte para pais e cuidadores e formação de profissionais. Também existe uma necessidade cada vez maior de levar esse conhecimento para empresas e instituições públicas.

Porque falar de inclusão não significa apenas adaptar uma sala de atendimento. É preciso pensar em escola, trabalho, família, saúde, relações sociais e autonomia. Uma pessoa autista continua sendo uma pessoa durante todas as fases da vida. E o suporte de que ela precisa também muda ao longo dessa trajetória.

O que aprendi trabalhando com autismo

Quando olho para trás, às vezes parece difícil acreditar no caminho percorrido. Eu comecei trabalhando cedo, vendendo chip na rua, trabalhando em comércio, sendo babá e garçonete. Depois veio a Psicologia. Vieram os primeiros atendimentos. Veio a Equipe Evoluir. E vieram oito anos acompanhando de perto um mercado que mudou completamente.

Vi avanços que considero importantes. Vi profissionais excelentes entrando na área. Vi famílias conseguindo acesso a tratamentos que antes pareciam muito distantes. Também vi os problemas que surgem quando uma área cresce rápido demais. Se existe uma coisa que esses oito anos me ensinaram, é que cuidado não combina com pressa.

Por trás de cada diagnóstico de autismo existe uma pessoa. Por trás de cada sessão existe uma família. Por trás de cada discussão sobre plano de saúde, terapia ABA, regulamentação ou mercado existe alguém tentando encontrar uma forma de cuidar melhor de quem ama.

É isso que eu não quero perder de vista.

O futuro do atendimento para pessoas autistas

A próxima década, para mim, não deveria ser apenas sobre aumentar o número de clínicas ou profissionais. Precisamos falar mais sobre qualidade. Sobre formação. Sobre supervisão. Sobre acesso. Sobre diagnóstico ao longo da vida. Sobre adultos autistas. Sobre famílias. Sobre inclusão no mercado de trabalho.

E sobre como construir uma rede de cuidado que não termine quando a criança cresce. É para esse caminho que quero levar a Equipe Evoluir. Continuar crescendo, mas de outra maneira. Com mais profundidade, mais responsabilidade e uma visão mais ampla de desenvolvimento humano. Porque, depois de oito anos vivendo essa história por dentro, uma coisa ficou muito clara para mim: o cuidado precisa acompanhar a pessoa, e não apenas o diagnóstico.

Joana Carolina Araújo, Psicóloga (CRP 18/04031), fundadora da Equipe Evoluir

Uma ideia sobre “Autismo em Cuiabá: 8 anos de desafios e transformação

  1. Kleber disse:

    Eu, Kleber, acompanhei a história da Joana de perto. Ver toda essa evolução e crescimento — tanto pessoal quanto profissional — me deixa extremamente feliz. É admirável ver como alguém pode crescer tanto e ainda abençoar a vida de outras pessoas e de suas famílias. Muito sucesso nessa jornada!

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