Credenciamento de planos de saúde: por que valores baixos ameaçam o tratamento

Recebemos recentemente de uma das maiores operadoras que atendemos aqui na Equipe Evoluir a notícia de que pretende alterar as condições de credenciamento, com redução significativa no número de pacientes atendidos por esse convênio caso as novas condições não sejam aceitas. Essa notícia não chega isolada. Ela reflete um movimento maior dentro da saúde suplementar, em que parte das operadoras tenta reduzir custo através de credenciamento com valor insuficiente para sustentar estrutura técnica de qualidade.
Nossa posição diante desse tipo de cenário não é de resistência isolada. É de avaliação estratégica com critério técnico. Um credenciamento só faz sentido quando o valor pago sustenta equipe qualificada e supervisão clínica constante, além de estrutura física compatível com o tipo de atendimento oferecido. Aceitar condição que compromete esse conjunto não protege paciente nenhum a médio prazo, mesmo quando parece garantir acesso imediato.

É por isso que, nos últimos anos, temos investido em diversificar a atuação da Equipe Evoluir para além da dependência de qualquer operadora específica. Reduzimos de seis para três unidades, escolhendo profundidade de atendimento no lugar de expansão acelerada. Ampliamos a atuação para outras frentes de desenvolvimento humano, além do atendimento voltado ao Transtorno do Espectro Autista. Essa reestruturação nos coloca hoje num lugar mais independente diante de negociação isolada com plano de saúde, porque a saúde financeira da empresa não depende de uma única fonte de receita.

Esse tipo de posicionamento deveria interessar direto a quem decide política pública de saúde, a quem julga processo envolvendo cobertura de terapia, e às próprias operadoras que hoje pressionam esse modelo de credenciamento. O problema de fundo não é técnico, é de horizonte de tempo. Reduzir valor de credenciamento resolve, de imediato, o balanço trimestral de uma operadora. Mas empurra para o médio e longo prazo um problema social bem maior. Clínica que aceita condição insustentável tende a perder qualidade de atendimento primeiro, e muitas vezes fecha as portas depois. Quem paga essa conta não é a operadora. É a família que perde continuidade de tratamento, é a criança que troca de terapeuta no meio de uma intervenção que dependia de constância, e é a sociedade inteira que deixa de ganhar um adulto com maior repertório de habilidades, maior autonomia e melhor qualidade de vida, tudo aquilo que uma boa intervenção na infância ajuda a construir.
Uma criança autista, em qualquer grau de suporte, quando recebe intervenção adequada, tem a chance de crescer desenvolvendo mais habilidades, mais autonomia e mais qualidade de vida, dentro do potencial que é único de cada uma. Não é uma promessa nem uma garantia igual para todos. É uma chance real, que depende diretamente da qualidade do atendimento recebido. Essa chance não se sustenta em atendimento feito por qualquer estrutura, dentro de qualquer credenciamento. Depende de técnica consistente e continuidade real de tratamento, elementos que custam dinheiro de verdade e que nenhuma operadora deveria tratar como custo dispensável.
A Equipe Evoluir segue aberta ao diálogo com qualquer operadora disposta a negociar credenciamento a partir desse critério técnico. Mas não vamos aceitar condição que comprometa o padrão de atendimento construído em oito anos, porque sabemos exatamente qual é o custo social de abrir mão disso.
Joana Araújo Fundadora da Equipe Evoluir